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Book Review “Salts and Suits”

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Um livro sobre a indústria do surf. Mas, calma aí! Existe uma indústria do surf?! Bom, se você freqüentou uma caverna ou viveu sob uma pedra nos últimos 80 ou mais anos realmente não percebeu o quanto o surf transcendeu a barreira do esporte, para transformar o “lifestyle” numa fábrica de sonhos e prazeres e, logo, formando um mercado a partir disto. Para situar os leitores em um campo de medidas mais palpável, a receita da indústria formada pelos “vagabundos, drogados e hedonistas”[1] apenas em terras tupiniquins alcançou R$ 5 bilhões de reais. Sim, 5 (cinco) BILHÕES, foi o quanto eu, você, seu vizinho, o amigo do vizinho e o cara que nunca pisou na praia mas anda de bermuda floreada ajudamos as marcas mais diversas a faturar. Portanto, chegamos a um acordo de que esta é uma indústria legítima, e é sobre como ela se formou que o jornalista/surfista/escritor Phil Jarratt nos conta no livro Salts & Suits.

%name %titleA trajetória é iniciada pelo autor com Tom Blake, de acordo com Jarratt, o primeiro empreendedor do surf moderno. Exímio designer, trabalhador incansável e surfista até a última célula, Blake – “neve ever traded the salt in his veins for a suit, nor a ride on a board for a seat on a board (meeting), and for that alone he should rightly be regarded as the soul father of the surf industry” – foi o shaper responsável pela primeira onda de popularização do surf. Ao desenvolver a hollow board, muito mais leve e manobrável se tornou um dos primeiros empresários do segmento. A partir dele, Jarratt desenrola o fio da meada sobre a mercantilização do esporte dos reis com exemplar maestria e embasamento. A história segue paralelamente o desenvolvimento da cultura surf nos litorais de Califórnia e da Austrália, acompanhando o surgimento de ícones como Greg Noll e a famosa Da Cat Model[2], Bob McTavish e a Plastic Machine[3], Bob Simmons e as keel fins[4] e o início das “big three” Quiksilver, Billabong e Rip Curl até os dias atuais, pós-crise econômica de 2008 que chacoalhou seriamente toda a indústria.

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A principal atração do livro, além de oferecer um confiável relato sobre o componente histórico dos acontecimentos – com Jarratt frequentemente presente nas ocasiões das décadas de 1970 em diante – é perceber o quanto as marcas e seus criadores tiveram que lutar interna e externamente a “batalha” entre os salts (surfistas) e suits (não-surfistas) no conflito entre o lucro e a autenticidade. Em ocasiões como estas surgiram diversas outras marcas e abordagens. O caso da Volcom é particularmente emblemático como desenrolar desses interesses. Richard Woolcott, até então funcionário de marketing da Quiksilver, descontente com os caminhos que a empresa rumava – “Big is the enemy of cool” costumava vociferar entre corredores – fundou a Volcom com o mantra: “Youth against the establishment”. Na ocasião, Bob McKnight, CEO da Quik, apenas diz à Woolcott – “you’re going to get to that point”. Hoje a Volcom é, assim como a própria Quiksilver e a Billabong, listada em bolsa de valores no seu mercado de origem.

Entre histórias e personagens, Jarratt (in)diretamente nos leva à reflexão acerca de valores, pontos de vista e motivações, colocando, através de relatos sem cortes ou meias verdades, histórias de pessoas reais e como o surf influenciou suas vidas/trabalho/hábitos. Leitura recomendada tanto para salts quanto para suits.

Por Lucas Zuch.


[1] Preciosos adjetivos dedicados aos surfistas pré-profissionalização do esporte (embora não totalmente extintos ainda hoje)

[2] Modelo do contraditório Miki Dora

[3] Primeira shortboard a obter reconhecimento de funcionalidade, com Nat Young vencendo o mundial de 1966

[4] Primeiras biquilhas, inspiradas na indústria naval

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