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Book Review “A Cauda Longa”

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

A primeira sensação que tive ao terminar o primeiro livro do físicoescritor e editor da revista americana Wired Chris Anderson foi: “Droga, já devia ter lido esse livro há 6 anos!”.

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Anderson é, como diz o nome da revista em que é editor, “antenado”. Após entrevistar alguns presidentes e observar dados de empresas 2.0 – negócios que surgiram após o advento e popularização da internet – como a Amazon, Netflix, iTunes e Rhapsody, entre outras, o autor percebeu que a antiga lei de Pareto – princípio em que 80% das consequências decorrem de 20% das causas. Ex.: 20% dos produtos de uma indústria correspondem a 80% das receitas da mesma – não estava mais se aplicando a estas empresas.

O que ocorre com essas empresas, que nasceram no início da revolução da internet é que, baseado num modelo eletrônico (abundante) de varejo, não há porque selecionar os produtos que têm maiores chances de vender para expô-los na prateleira – comportamento típico do comércio tradicional (escasso) e que implica na lei dos 80-20 – ao invés disso amplia-se, quase, infinitamente a escolha e disponibilidade de produtos. O que ocorre é que os custos de armazenagem são muito baixos (pense no espaço que ocupa um arquivo de música a mais para a iTunes ou de mais um título de filme para a Netflix), fazendo com que estas empresas aumentem as escolhas dos clientes.

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Instalação de arte do asiático Liu Bolin. Foto: Liu Bolin.

Enquanto no varejo tradicional uma empresa que vende, digamos, pasta de dente irá ter que pagar ao supermercado um preço para manter seu produto convenientemente exposto (se for na prateleira da altura dos braços ou dos olhos terá que pagar ainda mais), no mercado online, devido aos buscadores e filtros, a empresa diminui os custos para obter espaço e, ao mesmo tempo, pode oferecer todos os sabores de pasta de dente que produz. Ou seja, o reflexo na sociedade – algo que Anderson foca muito durante o livro – é que com a explosão do número de escolhas as pessoas não são mais obrigadas a consumir o produto X ou Y. Ela tem o poder de escolher o I³. No tamanho, cor ou sabor que quiser. Isso vale para programas de TV, shows de música, brinquedos, tacos de golfe, óculos de sol e qualquer outra coisa que possa interessar  um ser humano.

Essa é a ideia, ampliando a oferta até quase o infinito, sempre haverá alguém para comprar uma música de jazz afro-cubano ou assistir a um filme do movimento surrealista finlandês. Durante uma passagem do livro, o CEO da Netflix revela que 95% dos 25 mil filmes em estoque (hoje já são mais de 55 mil) foram alugados ao menos uma vez por semestre. Isso significa liberdade de escolha para os clientes que estavam cansados de assistir ao Domingão do Faustão e lucro para as empresas que não tem a estrutura necessária para fazer um programa de massa. Ao observar os gráficos de vendas da Netflix e destas outras empresas, obtém-se a Cauda Longa. No eixo vertical estão os números de vendas (por popularidade) e no eixo horizontal estão os títulos (filmes, música, livros etc). Na Cabeça (parte esquerda do gráfico) se encontram os clássicos dos Beatles, Stones e Elvis e outros hits… como Michel Teló. À medida que as vendas se espalham em direção à direita, formando a Cauda, encontram-se os nichos como jazz afro-cubano, remixes e outros gêneros nunca imaginados.

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A Cauda Longa plotada em gráfico de exemplo. Fonte: www.stoa.usp.br.

Como Anderson expõe alguns insights sobre as mudanças de comportamento decorrentes desse novo modelo econômico, pensei que seria interessante observar a Cauda Longa do Surf. Como todos os outros segmentos de mercado que estão sendo afetados pelas novas tecnologias e comportamento de consumo, o surf também tem acompanhado esse desenvolvimento. Pense nas pranchas, inicialmente. Primeiro, foram as gigantescas Olo havaianas, passando para a Hollow Board de Tom Blake, então foram evoluindo em termos de shape e materiais nas mãos de Hobie, Simmons, Quigg etc. Até que o australiano Bob McTavish, com a parceria do californiano George Greenough, em meados dos anos 1960 “serrou” algumas polegadas a mais de bloco do que o normal e refinou o shape para deixa-la mais leve, rápida e radical.

McTavish tinha, sem saber, iniciado a Cauda Longa do Surf. A partir disso, mais e mais shapers se sentiram à vontade para experimentar e interagir com novas possibilidades e parâmetros (nada que os anos 70 e o movimento hippie também não tenham ajudado). O que vemos hoje é que, embora a cultura do surf não seja exatamente conhecida por seu pensamento original e independente, há uma infinidade de pranchas com que um surfista pode experimentar. Não há mais a necessidade de surfar com uma prancha de 50 kg, mas se você quiser fazer isso que bom pra você. Assim como não há apenas a tri-quilha 6’0” se você quiser fazer manobras radicais ou pegar tubos.

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Infinitas alternativas. Fotos: (a partir do alto à direita em sentido horário) Olavo Kuhn; CI Surfboards; Surfermag.com; MerchantsRow

Existe qualquer possibilidade de cor, tamanho e material para qualquer que seja a sua praia. Falando em praia, qualquer lugar com uma costa que seja minimamente exposta ao oceano pode ser explorado, da Suécia ao Iêmen. Assim, poderíamos falar da Cauda Longa do Turismo de Surf… mas acho que você já entendeu a ideia.

– Visite o Blog de Chris Anderson para leitura de artigos sobre a Cauda Longa.

Texto por Lucas Zuch.

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