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Blue Karma

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

“Vivenciar uma boat trip nas Ilhas Mentawaii com os seus melhores amigos.”

Para a maioria dos surfistas, tal sentença é um sonho idealizado desde criança.

Você trabalharia anos por uma trip como essa? Venderia seu carro em troca de ter o momento que vai ficar para sempre marcado em sua memória, onde com os seus 73 anos de idade irá sentar junto a seus netos para contar uma história incrível a respeito daquela onda tubular e perfeita? Parafraseando a propaganda da Mastercard (publicidade grátis!), há coisas que o dinheiro não compra. No retorno da viagem andaria de bicicleta feliz da vida pela cidade.

Deixar para trás o trabalho, a namorada, enfrentar dificuldades, utilizar economias de uma vida toda, fazer um planejamento de 2 anos… tudo isso almejando um sonho.

Difícil explanar e imaginar o sentimento de quem viveu esta utopia, ainda por cima quando nela pegamos a melhor onda de nossa vida. Prefiro deixar o relato para quem vivenciou, sentiu, e com certeza nunca mais irá esquecer.

15 amigos, 15 dias nas Ilhas Mentawaii e produção da Red House Studio, sem mais!

Blue Karma from Red House Studio on Vimeo.

Acordei em mais um dia de trip, o 13°, em Greenbush, onde aguardávamos ansiosamente a chegada do primeiro swell. Nada de muito expressivo se esperava, mas minha expectativa era no mínimo 5 pés pois já havíamos surfado em Greenbush em dia de pouca onda, e algumas ondas já beiravam os 5 pés. Levantei e já dei de cara com uma série de umas 6 ondas furiosas e não perfeitas, o mar acordara mais ou menos como eu acordo sempre, com cara de quem não quer papo com ninguém. Como de costume,  enchi um potinho de frutas, coloquei uma torrada a esquentar e fui conferir a movimentação do oceano já meio adrenalizado com a ideia de colocar minha 6,3 na água. O vento que estava forte de manhã foi diminuindo, e as séries foram demorando mais a entrar, porém, quando entravam, era como se enrolasse um tapete pelo canto, o cilindro era perfeito. Na verdade, na última sessão da onda a mesma já era mais quadrada do que cilíndrica. E a frase que o Nelson escutou de um indonesiano em uma de suas jornadas e já vinha se tornando um mantra no barco vinha a tona: “Waves are not like a soccer field my friend! Soccer field is always there and you do whatever you want whenever you want… Surf is different, sometimes winds change, swells change, tides change… everything is changing my friend! Is all about to be in the right place, at the right time!”

Coloquei parafina na 6,3 zerada, troquei as quilhas e me atirei na água, confesso que um pouco preocupado, pois havia umas vinte pessoas na água e a série que demorava uns 20 minutos estava vindo com no máximo 2 ondas boas. Boas não, perfeitas. Felizmente estava disposto a esperar, paciência é uma virtude! Aguardei quase uma hora até pegar minha primeira onda, esse tempo todo fiquei observando muito quem estava pegando, quem não estava, os que puxavam o bico, os que não respeitavam a fila. É muito importante a pessoa conseguir sentir e saber tudo o que está acontecendo, para quando chegar na tua vez, quando a ficha um estiver em tuas mãos depois de esperar quase uma hora, tu conseguir ter a calma e tranquilidade para tomar a decisão de NÃO ir na onda grande mas não encaixada na bancada que vier e o cara do teu lado colocar aquela velha pressãozinha com a pergunta: “Tu vai nessa alemão?” Essa com certeza é a parte mais difícil, a bendita escolha! A pressão acontece de todos os lados. Tem 20 caras querendo pegar a série que veio pra ti, quando tu enxerga a onda tu tem poucos segundos para dizer se tu vai ou não para o ficha 2 ou 3 se posicionar e não desperdiçar uma onda da série. Tu sabe que se tu cair de primeira ou ela fechar, vai demorar o mesmo tempo para a ficha 1 retornar a tua mão. E ainda tem a possibilidade de se machucar de alguma forma se o mar estiver “machucável”. Nesse banho da manhã tinha pego umas 3 ondas bem boas e já tinha demonstrado pro crowd que tinha disposição, pois umas dessas 3 foi uma fechadeira que coloquei pra dentro sem medo de ser feliz. Parece bobagem, mas as vezes atitudes como esta evitam de um bacaninha remar na tua onda por achar que tu vai puxar o bico ou algo parecido. Mas agora eu já estava com frio de tanto esperar. Cowboy era o ficha um e eu o dois! Veio a série e eu só estava pela saideira pra voltar pro barco feliz da vida com a adrenalina que já sentira. Passaram duas ondas que julguei não tão boas e cowboy foi na segunda! A onda dele passou e logo veio a terceira e maior da série, dropei bem pra dentro do pico já cortando a parede num grab rail torcendo pra que o lip não me decepasse. E o que aconteceu foi que peguei o melhor tubo da minha vida até então, um salão que quando eu estava la dentro cheguei a achar que não sairia, mas perseverei na posição e quando saí do tubo e já me joguei pra dentro da onda antes da ultima sessão, onde a água se deformava por causa de alguns corais que me chamavam como se fosse uma armadilha. Voltei pro barco dando gargalhadas, incrédulo do fato que acabara de acontecer e realmente muito feliz. Quando cheguei remando uma surpresa, um cara me chingando ao invés de comemorar, por eu não ter acreditado na ultima sessão, aquela dos corais que ficam ali sorrindo e dizendo: “vem que tem magrão”. Mas fiquei amarradão do mesmo jeito. Ainda mais depois de ver a filmagem do Mark.

No barco, comendo uma pizza do almoço, cuidando para não comer muito e olhando a galera pegar aquele clássico, lembro de ter pensado: Foi um dos melhores banhos da vida e só 4 ondas! Incrível! Comi pouco para surfar logo, pois o crowd tinha aliviado e algumas ondas já passavam sem serem surfadas. Relaxei alguns minutos e entrei de novo com a missão de fazer igual ao outro banho, esperar as boas e fazer outro barrel da vida. A galera na água já estava falando que eu e o Icaro (surfista profissional e sócio de um barco que lá estava), tínhamos pego as melhores do dia e eu já estava feliz pra caramba. E como no outro banho já tinha pego algumas ondas e esperava louco de frio a saideira, mas é aquela coisa, saideira tem que ser boa. Passaram duas séries e eu levantei os braços indicando que abrira mão da condição de prioridade. O Nelson foi em uma antes e pegou um tubo sem as mãos na frente do waterman pinguim. Foi quando veio a última série que eu pegaria aquele dia. Remei pela vida primeiro em direção ao outside para não levar na cabeça e depois remei pela vida e mais um pouco para entrar bem naquela morra. Num drop tranquilo já senti que era das grandes, e quando cotava a onda na cavada, me deparei com um paredão de água e energia que só havia uma forma de atravessar: Por dentro dela! Concentração máxima rolando e foi só dar uma passada para ganhar velocidade e ela já havia me envolvido por completo. Foi tudo muito rápido, a água passava muito rápido, eu estava muito rápido e quando realizei que iria sair do tubo avistei na última sessão uma outra oportunidade, mais arriscada, mas lembrei do “tem que acreditar, alemão”, que eu escutei na chegada do primeiro banho e resolvi dar mais uma embalada e investir naquela muca. A onda que já era oca ficou ainda mais e o resultado foi que atravessei a última sessão num tubo profundo e “quadrado”. Agora com uma mescla de excitação e alegria, comecei a gritar, pois saíra daquela onda. E com palavras não existe a menor possibilidade de se expressar o sentimento que me proporcionou tudo aquilo.

Denovo estava eu dando gargalhadas no outside, a galera gritando muito no barco, eu gritando mais ainda, logo pensei, tentando acabar com a expectativa de ver a onda: o Mark provavelmente não pegou essa. A melhor do dia nunca é filmada. Que nada! Tava tudo registrado e mesmo se não tivesse, do HD da minha retina isso nunca vai sair com certeza. Cheguei no barco e a galera indo a loucura, começaram a jogar cerveja em mim e celebrar muito a onda! Já era fim de tarde e abri logo uma Bintang pra festejar com os brothers a grande vida! Com certeza foi a melhor onda da minha vida e o pior é que não sei se vou pegar uma melhor que essa. Eu simplesmente estava no “the right place, at the right time!”. Tenho 26 anos e tenho medo de que o estado físico e psicológico que me proporcionou pegar essa onda piore para as próximas trips. Mas na real, foda-se! Não é por isso que vou deixar de pegar onda e estar sempre buscando me divertir dentro d´água. Dentro das comemorações e brindes ao fato ocorrido, veio o Ignacio com um olhar longe e me disse: – “O alemão, tu já parou pra pensar quantas horas de surf, ou pensando em surf, vivendo a parada, se precisa pra fazer o que tu fez ali cara?” Essa simples pergunta me emocionou bastante. Pensei em todas as roubadas e maratonas atravessando o estado do Rio Grande do Sul que fiz para pegar onda com os amigos e um sentimento de gratidão tomou conta de mim. Fui para a parte mais alta do Barco, que se deslocava em direção a um refúgio sem ondas para dormirmos e fechei os olhos para agradecer a Deus por ter me deixado viver tudo o que vivi com muita felicidade, e ainda me proporcionado um dia daqueles. Isso não tem preço. Foi muita emoção num dia só. Quando abri os olhos, vi aquele visual de final de tarde no barco com um colorido que jamais vira, ainda ouvindo o som das gargalhadas da galera, pensando que ainda por cima ali estavam meus melhores amigos, chorei como uma criança, e me dei conta com muita convicção que estava eu ali vivendo um dos melhores dias da minha vida!

A viagem acabou e ainda lembro muito desse dia. Quando chegamos no aeroporto de Padang recebi a triste notícia de que uma pessoa muito especial na minha vida havia falecido enquanto estavamos incomunicáveis embarcados. Meu professor de Karate durante 13 anos, que com certeza fez parte da minha formação e que tenho como um segundo pai, o Sensei Moacir Quevedo, se fora sem eu poder me despedir. Logo que recebi a notícia, a tristeza tomou conta de mim e não quis saber nem muitos detalhes, pois não poderia desmoronar o ânimo faltando mais 7 dias de trip. Um dos detalhes que não quis saber foi o que ele faleceu justamente no dia que peguei aquela onda. A onda que só entrou uma vez no dia e eu estava lá, no lugar certo e na hora certa para pegá-la. Por isso, e não apenas pelos treinos precedentes a viagem que me prepararam física e psicologicamente para tanto, dedico a ele esse momento de minha vida tão especial.

Rafael Linhares da Silva, Julho, 2013.

Introdução: Cássio Cappellari

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