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Apoteose no WCT esconde agonia do surf de base no Brasil

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O surf brasileiro vive uma das piores crises de sua história, mascarada pelo título de Gabriel Medina na última edição do Circuito Mundial (WCT). Nacionalmente, o esporte ainda tem gestão amadora e não consegue atrair patrocinadores, dificultando o desenvolvimento de novos talentos no deserto que a modalidade se tornou dentro do Brasil.

O WCT chegou ao Rio de Janeiro com Adriano de Souza, o Mineirinho, na liderança do ranking após três etapas, e Filipe Toledo na terceira posição. Mas na base o País caminha no sentido contrário. As competições rareiam, o número de atletas diminui a cada evento e a Confederação Brasileira de Surfe (CBS) vive clima de guerra política.

Como resultado, o Brasil já perdeu o antigo protagonismo nas competições da Associação Internacional de Surfe (ISA), entidade responsável pela organização das categorias de base do esporte, e o surgimento de uma nova Brazilian Storm é uma ilusão.

“Infelizmente o surfe amador está em mãos erradas. Pessoas querendo enriquecer às custas do nosso esporte, que ainda caminha de joelhos no País”, diagnostica Ricardo Toledo, bicampeão brasileiro da modalidade e pai de Filipinho Toledo. “E o pior, como serão as próximas gerações se não temos trabalho de base?”, questiona.

 

Acervo Gazeta/Press

Miguel Pupo e Gabriel Medina (d) competiram pelo Brasil na base, caminho quase impossível para nova geração. Acervo Gazeta

O WCT, organizado pela Liga Mundial de Surfe (WSL), é a faceta profissional da modalidade com 11 eventos anuais em praias de todo o mundo apenas para os competidores de elite. Antes de estarem aptos a atuar neste nível, os atletas passam a infância e a adolescência disputando competições amadoras locais, nacionais e internacionais.

Ao menos deveriam. Medina, Mineirinho, Filipinho, Miguel Pupo e Alejo Muniz seguiram esse caminho, cada vez mais difícil para as novas gerações. O Circuito Brasileiro, promovido pela CBS e com etapas concentradas no Nordeste, já não consegue atrair os principais atletas do País.

Brazilian Storm Foto: Instagram / Reprodução

Brazilian Storm Foto: Instagram / Reprodução

 

Descontentes com a administração de Adalvo Argolo na entidade nacional, Estados como São Paulo e Santa Catarina pararam de enviar representantes aos torneios da CBS. Assim, a cadeia natural de evolução dos surfistas é interrompida, e muitos acabam desistindo da carreira, o que deve impactar o número de competidores de elite no futuro.

“Nossos atletas, que hoje estão entre as maiores estrelas do tour profissional, ganharam o mundo. A sorte é que tiveram patrocinadores, mas eles são um foguete sem rastro. Precisamos criar mecanismos para incentivar e colocar todos os nossos novos talentos na cola deles”, explica o diretor da divisão sul-americana da Liga Mundial de Surfe, Roberto Perdigão.

 

Mas a CBS não é capaz de criar esse rastro. Sem fundos e patrocinadores, a entidade mal consegue planejar um calendário nacional. Quando envia delegação a competições internacionais, não custeia a viagem dos atletas, obrigados a gastar o próprio dinheiro ou apelar aos parceiros pessoais para competir. 

“A entidade não tem nada, não tem estrutura, sede. A gente procura manter os documentos em ordem para ficar com tudo em dia. A realidade é essa”, diz Adalvo Argolo, presidente da CBS.

“No surfe ainda estamos muito amadores. Todos nós. E assumimos isso. Não sei se as outras entidades estão assumindo assim, mas precisamos melhorar em um contexto geral”.

 

Na temporada passada, o Circuito Brasileiro contou com quatro etapas, três no Nordeste, base política do presidente da CBS, e uma no Norte. O campeonato foi aberto em Fortaleza, em janeiro, prosseguiu em Salinópolis (PA), em março, Salvador, em maio, e Cabo de Santo Agostinho (PE), em julho. Os últimos cinco meses do ano não tiveram eventos.

Assim como no ano passado, em 2015 o Circuito Brasileiro ficará restrito a estas duas regiões. Ele começou em Salvador e teve a segunda etapa em Salinópolis. A terceira, ainda não divulgada pela CBS, deve ocorrer no primeiro fim de semana de junho em Pernambuco. A última, em agosto e possivelmente de novo na Bahia.

“O Circuito Brasileiro acabou, morreu. Só se esqueceram de enterrar. É coisa de má organização e São Paulo está fora, tirou o time de campo”, afirma Silvio da Silva, o Silvério, presidente da Federação Paulista de Surfe (FPS), que há três temporadas já não manda atletas para os eventos nacionais.

 

A situação do surfe amador no País prejudica os resultados internacionais, já que os atletas enviados às competições da ISA são selecionados pelo Circuito Brasileiro. Sem os melhores surfistas disputando os eventos internos, o País tem times mais fracos no exterior. A CBS tenta compensar o desnível com convites a competidores que não se classificaram pela temporada nacional, mas não é fácil encontrar algum que aceite custear a viagem.

No Campeonato Mundial júnior de 2014, no Equador, o Brasil ficou na quinta colocação geral, apesar de ter sido campeão e vice do sub-18 masculino com Luan Wood e Elivelton Santos, respectivamente. O País foi ao evento com dois atletas a menos do que as principais delegações.

Isso quando há equipe. Na última edição dos Jogos Mundiais da ISA no Peru, evento que marcou a comemoração dos 50 anos da entidade, a CBS não enviou representante. Segundo Adalvo Argolo, porque no mesmo período havia competições do WQS em Santa Catarina e na Bahia.

Ricardo Toledo e Filipe

Ricardo Toledo, pai de Filipinho, questiona futuro do Brasil na modalidade sem trabalho de base. Foto: Kirstin/ASP

São Paulo parou de mandar equipe ao Circuito Brasileiro amador por descontentamento com a gestão do mandatário nacional. Santa Catarina seguiu o mesmo caminho como protesto ao trabalho de Adalvo Argolo. Eleito em 2010 para um mandato de quatro anos, ele foi postulante único ao cargo em dezembro de 2013 e acabou reeleito com 12 votos, oito deles por procuração.

Apesar de reclamar da falta de prestação de contas de verbas captadas com o Ministério do Esporte e da má organização dos eventos, a oposição não montou chapa, nem compareceu à eleição, alegando já prever a maioria de votos por procuração.

“Não fui, nem fiz questão, cara. Por isso digo que tenho um pouco de culpa por ficar ausente do pleito. Mas também já sabia o que aconteceria. Um cara vai representando oito federações e ele (Adalvo Argolo) ainda tem o voto da Bahia, do Ceará e por aí vai. Fica difícil qualquer pessoa concorrer”, diz Fred Leite, mandatário da Federação Catarinense de Surfe (Fecasurf).

O dirigente da entidade sulista integrava a chapa de Adalvo em 2010 como vice-presidente, mas a deixou poucos meses depois de eleito. Segundo ele, o presidente “surtou” ao ouvi-lo levar reclamações de atletas, que estariam sem frutas para comer e água gelada para beber durante um evento disputado em calor intenso.

Institucionalmente, o País também desliza. Uma dívida de US$ 6 mil da CBS com a Associação Pan-Americana de Surfe (Pasa) impede a participação de brasileiros nas competições continentais e o voto nas assembleias da entidade. No último Pan com atletas nacionais, na cidade de Ilhéus (BA) em 2009, o título da categoria júnior foi conquistado por um surfista paulista de 15 anos de idade, Gabriel Medina.

“Há algum tempo o Brasil se desconectou dos ciclos internacionais, dos Mundiais da ISA. Os jovens surfistas brasileiros têm que sair para disputar esse tipo de evento. É um país com muito talento, há vários jovens que precisam de uma plataforma para ter exposição midiática e conseguir patrocinadores para seguir suas carreiras profissionais”, analisa o peruano Karin Sierralta, novo presidente da Pasa e vice da ISA.

 

Mineirinho é carregado por Miguel Pupo: brasileiros transferiram para o WCT espírito de equipe. Crédito: Divulgação.

A dívida foi originada justamente na competição vencida pelo então jovem Medina em Ilhéus. O Brasil ganhou em 2007 o direito de receber a edição seguinte do evento, programada para 2009. A CBS, então presidida pelo paranaense Juca de Barros, cedeu a organização e promoção do campeonato à Federação Baiana de Surfe (FBS), cujo mandatário era Adalvo Argolo, à época vice da CBS.

O dirigente deveria arcar com os custos dos exames antidoping dos atletas e das passagens aéreas da presidente e do secretário da Pasa, mas segundo a entidade continental não o fez. Dois meses depois, assumiu a presidência da CBS sem reconhecer a dívida, deixando mais árido o terreno dos surfistas amadores brasileiros.

Outro oásis que não existe mais é o dos Jogos Sul-Americanos de Praia, que tiveram sua primeira edição em 2009. Naquele ano, Gabriel Medina, Alejo Muniz, Jadson André, Miguel Pupo (todos disputaram a temporada passada do WCT), Gabriela Leite e Camila Cássia se tornaram os primeiros surfistas a integrar uma delegação do Comitê Olímpico do Brasil (COB).

Nos últimos Jogos de Praia, na cidade venezuelana de Vargas, em 2014, o surfe não teve representantes na equipe nacional, o que alguns dirigentes da modalidade enxergam como sintoma do enfraquecimento do esporte.

Segundo o COB, “dentro do planejamento estratégico que define as prioridades de investimento para este que é o ciclo olímpico mais importante da história do Brasil, decidiu-se na época não levar para os Jogos Sul-Americanos de Praia de Vargas as modalidades que não faziam parte dos programas olímpico e pan-americano”. Fora do estrelato do WCT, a tempestade do surfe nacional ainda é de areia.

 

Por: André Sender e Bruno Ceccon

Fonte: Gazeta Esportiva

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