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Águas Desconhecidas – Wayne Lynch

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Com o lastimável encerramento da publicação da revista The Surfer’s Journal Brasil decidi resgatar algumas das dezenas de matérias escritas por mim para a seção Mar Agitado, e compartilhar semanalmente com os leitores do Surf & Cult. Pra começar, uma entrevista com Craig Griffin, diretor da mais recente e completa biografia do ícone do surf australiano Wayne Lynch, em matéria publicada originalmente na edição 02.3 da já saudosa TSJ Brasil:

Mais do que um dia na vida de Wayne Lynch

As biografias de surf definem o australiano Wayne Lynch como um ‘evolucionário’, um ‘surfista à frente do seu tempo’, que adotou uma postura evasiva em relação à indústria do surf como esporte, tornou-se um bem-sucedido shaper e manteve ‘a mesma linha limpa no tubo por mais de 30 anos’.

Ao longo de toda esta jornada, Wayne teve cultivada a sua aura de herói rebelde, um surfista recluso e inovador, capturado em filme apenas em alguns grandes e esparsos momentos, em produções como “Evolution” de Paul Witzig (1969), “A Day In the Life of Wayne Lynch” de Jack McCoy (1978) e, mais recentemente, no alusivo “Another Day in The Life of Wayne Lynch”, de Cyrus Sutton (2011).

Lançado em julho de 2013, o documentário “Uncharted Waters – The Personal History of Wayne Lynch”, do diretor Craig Griffin, se propõe a oferecer um retrato biográfico aprofundado e definitivo sobre este ícone do surf australiano, a partir de depoimentos do próprio Wayne e de uma extensa lista de personalidades do surf mundial.

Ao longo de seus 85 minutos de duração, o filme explora em detalhes a história do garoto prodígio que abandonou o circo das competições logo em sua gênese no início dos anos 70 e se isolou nas paisagens desoladas de sua terra natal na região de Victória, no sul da Austrália, para fugir do alistamento militar da Guerra do Vietnã e viver a essência do surf em sua plenitude.

Criado também nas ondas do litoral oeste de Victória, Craig Griffin é um experiente produtor audiovisual de documentários que escolheu o conterrâneo Wayne como personagem de sua primeira experiência na direção de um longa-metragem. No intervalo entre as primeiras exibições do filme nos Estados Unidos em junho de 2013, ele concedeu a seguinte entrevista:

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1 – Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre Wayne Lynch?

Bom, desde o início eu ficava ouvindo histórias sobre este tal de Wayne Lynch. Por toda a costa oeste de Victória as pessoas falavam sobre tê-lo visto, mas eu nunca o via, então fiquei intrigado. Então, em 2009, quando eu o conheci e ouvi seus relatos percebi que havia ali uma grande história. De certa forma, eu comecei a trabalhar neste filme em 2009, mas eu já pensava nele desde meados dos anos 70.

2 – Quanto tempo o filme levou para ser produzido e como ele foi financiado?

Foram quatro anos desde a ideia inicial em 2009 e os últimos doze meses, quando o volume maior do trabalho foi realizado, foram bastante intensos. O filme foi financiado por várias fontes, sendo as principais a companhia White Tag, da Austrália, as marcas Patagonia e Revo, além de fundos governamentais daqui, como Film Victória e Screen Austrália.


3 – O que você apontaria como os maiores equívocos que as pessoas tem sobre Wayne Lynch revelados pelo filme?

Wayne está longe de ser o estereótipo de surfista, mas presumo que as pessoas já sabiam disso. Não saberia apontar equívocos, mas eu acho que o público obtém uma boa compeensão sobre a visão de mundo de Wayne e aquilo que o torna tão único.

4 – Quantas pessoas foram entrevistadas para o filme?

Eu entrevistei mais de 60 pessoas, incluindo Gerry Lopez, Nat Young, Barton Lynch, Peter ‘PT” Townend, Wayne ‘Rabbit’ Bartholomew, Maurice Cole, Drew Kampion, Sam George e Dave Parmenter.

5 – Qual o conteúdo de ação do filme em termos de imagens de arquivo e gravações atuais?

Nós gravamos uma viagem de Wayne até a Nova Caledônia, mas a maioria das imagens é de arquivo. Eu tive acesso total aos filmes de Jack McCoy e Paul Witzig – e eles são provavelmente os cinegrafistas principais quando se fala em Wayne Lynch. Então, eu pude usar imagens de filmes como Evolution, Sea of Joy, A Day In The Life of Wayne Lynch e Storm Riders – tem realmente muita coisa boa em todos estes filmes.

6 – O que você considera como os pontos mais importantes e obscuros na vida de Wayne Lynch?

Eu não tenho certeza se há um trecho específico, pois um ponto importante em Wayne é a sua conexão intensa com o litoral e as paisagens onde ele foi criado. Então isso começou desde o seu nascimento e tem continuado ao longo de toda a sua vida.

O filme dá bastante atenção aos efeitos da Guerra do Vietnã em Wayne, quando ele ficou foragido e evitou ser recrutado pelo exército, então eu presumo que a rebeldia juvenil e a emergência da contracultura foram períodos fundamentais na vida de Wayne.

7 – Como você acha que este documentário irá ressoar junto ao público de surfistas e não-surfistas?

Eu acho que o filme irá ressoar em ambos os públicos. Eu sei que os surfistas gostam da história, já que qualquer surfista com algum interesse nesta cultura sabe que Wayne é uma figura-chave no desenvolvimento do esporte e que ele sempre foi um tipo de persongem ‘outsider’ singular. Por outro lado, quem não surfa poderá conhecer de verdade o surf a partir de Wayne, e talvez alcançar algum entendimento sobre os motivos que levam o surf a significar tanto para aqueles que amam praticá-lo.

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Texto de Luciano Burin, publicado originalmente no blog Surf & Cult.

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