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A Relação Entre o Surf e a Meditação

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Para explicar essa relação é necessário entender o que é a meditação e em qual momento o surfista poderia, surfando uma porção dinâmica do oceano, com cores, movimento e som ao seu redor, atingir tal objetivo.

A meditação ou dhyána, em sânscrito, é uma técnica do acervo do Yôga utilizada para designar tanto o exercício de meditação, quanto o estado de consciência obtido com essa ferramenta. O exercício em si é bastante simples: consiste em concentrar-se e não pensar em nada, não analisar o objeto da concentração, mas simplesmente pousar a mente nele até que ela se infiltre no objeto, conforme ensina o renomado escritor DeRose no livro Tratado de Yôga. Assim, estaríamos aptos a perceber a essência do objeto observado e, com o tempo de prática, a essência de nós mesmos, alcançando o autoconhecimento.

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Segundo os Shástras, escrituras antigas que expõem diversas técnicas e conceitos sobre o tema, quando o observador, o objeto observado e o ato da observação se fundem numa só coisa, isso é meditação. Outro fator importante, e que se torna um grande diferencial sobre este estado interno, é a noção do tempo quando estamos meditando. Por ser uma percepção emocional, a sensação do lapso temporal pode ser distorcida para mais ou para menos. Quem já não viu uma situação passar num piscar de olhos quando na verdade se passaram diversas horas? No caso do meditante, tem-se uma vivência tão profunda do presente que um mero segundo parece durar horas.

Mas afinal, como o surf, que é um esporte de constante movimento corporal, emocional e mental, pode nos levar a esse estado de aumento da consciência?

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Foto: Trevor Moran

Bem, neste esporte existe uma manobra que é almejada por todos os praticantes dessa verdadeira arte de se colocar em pé sobre o oceano. Por não ser efetivamente uma manobra, mas um estado dentro da onda, o tubo se torna um momento indescritivelmente prazeroso. Ele acontece quando estamos envolvidos pela água e nos sentimos plenamente amalgamados com as forças da natureza.

Shaun Thompson, conhecido surfista sul-africano e campeão mundial de 1977, descreve maravilhosamente este momento especial: O tubo é a soma de forças complexas se relacionando. No tubo o surfista está equilibrado na beira da destruição em uma face convexa composta por milhares de toneladas de água, que se contorcem até a ondulação sucumbir para a hidrodinâmica, a força de gravidade e a mudança gradual no contorno da bancada. No tubo, a onda é lançada para frente, jogando sua crista até que o surfista fique completamente imerso numa cápsula de água, um lugar de isolamento e silêncio onde o tempo passa mais lentamente, gota por gota. Onde a sensação de velocidade é reduzida e a percepção torna-se mais aguçada.

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Foto: Stuart Gibson

Pois é justamente nesse instante tão especial que o surfista pode conquistar, ou se aproximar, do estado que os yôgins se esforçam tanto para atingir. Perceba que na descrição de Thompson ele menciona duas informações muito próximas do que a meditação produz: o instante passa mais lentamente e a percepção se torna mais aguçada.

Ora, será que podemos traçar um paralelo entre essas duas vivências que, teoricamente, nada possuem de similaridade, mas que, na prática, parecem produzir um estado interior muito parecido?

Numa entrevista concedida pelo surfista brasileiro Teco Padaratz, ele faz uma analogia muito interessante sobre o tubo e a passagem do tempo. Na descrição dele, enquanto se está dentro da onda, há uma demonstração perfeita de como o tempo passa por nós e de como devemos efetivamente viver o presente, sem distrações ou devaneios. Ele descreve a cena do surfista posicionado dentro daquela pequena capela de água como o momento do aqui e do agora. Tudo aquilo que foi vivenciado dentro do tubo explodiu, virou espuma branca, ficou para trás e é o seu passado. O futuro se encontra na luz que se enxerga ao final desse cilindro de água e representa o nosso objetivo, aquilo que almejamos. Porém, se ao longo do tubo a sua mente se deslocar para a fração de onda já surfada ou se projetar para o seu final e não vivenciar o caminho real que o levará até lá, é bem provável que a onda o derrube e o atire sobre a bancada sob a qual a onda quebra, o que não seria nada agradável. Tudo aquilo que foi vivido não construiu o futuro desejado, pois houve perda de foco, distração.

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Foto: Stuart Gibson

Essa forma, portanto, de enxergar o tubo e a atitude correta dentro dele nos ensina algo importantíssimo dentro do processo meditativo: concentração. A concentração é o estado que precede a conquista da meditação. Somente através do foco total de nossa mente sobre algo é que iremos conseguir fazê-la parar, numa vivência tão plena do aqui e agora que o tempo se dilata e não há mais pensamento, apenas intuição.

Para corroborar ainda mais com essa hipótese, vejamos o que Kelly Slater, o maior surfista de todos os tempos, disse ao descrever um tubo absolutamente incrível e quase impossível de ser surfado, no Tahiti: “Eu senti a onda e flui com ela. Eu não pensei, foi tudo instinto, sem questionamentos. Meu surf dentro do tubo é uma reação imediata aos elementos, sem pensar no que está realmente acontecendo.”

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Quando nos sentamos para meditar, umas das coisas mais importantes a se fazer para que a mente pare é não questionarmos nem analisarmos o objeto ou o som no qual estamos nos concentrando, e é justamente o que Slater menciona ter feito. Ele não questiona, não analisa, não pensa, apenas deixa que a consciência assuma um estado de foco em que a situação toda flui, como se ele conhecesse a essência da onda, como se ele estivesse meditando sobre ela.

Obviamente nem todos os tubos nos levarão a um estado tão profundo de concentração e somente alguns surfistas conseguirão aproximar-se dessa expansão da consciência enquanto estão na onda, mas me parece bem claro que o feelling que eles sentem também é apreciado, e aprofundado, pelos yôgis.

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Lucas de Nardi em Teahupoo. Foto: Arquivo pessoal.

Por fim, existe uma frase no universo do surf que nos diz: only a surfer knows the feeling’. Mas, afinal, que feeling é esse? O que o surfista sente que só se conhece surfando? Será esse feeling a meditação? E como saber que se atingiu esse fim? Na verdade, se você não tem certeza, é sinal que não meditou. Porém, mesmo estando certo que o fenômeno ocorreu ele pode não ter acontecido. A referência mais objetiva é a forma como você percebe o tempo.

Fica então a dica: em qualquer atividade que exija concentração, se a percepção temporal for distorcida para mais, há uma grande chance de que você esteja próximo da meditação. E neste quesito, os surfistas, ao menos durante o tubo, parecem levar uma vantagem sobre os demais.

Lucas de Nardi em Teahupoo. Foto: Arquivo pessoal

Texto: Lucas De Nardi

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