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A indústria do surf está crescendo – Pt. 2

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

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“Se as marcas não endêmicas podem espalhar o surf para a maior parte do mundo, talvez um dia ele esteja nas Olimpíadas”, disse Kolohe Andino. Bem, isso poderia acontecer. Foto: J. Kenworthy

A Target parece estar aplicando uma improvisação do modelo desenvolvido pela primeira vez, há nove anos, com o campeão olímpico e, entre outros títulos, capa da Rolling Stone, Shaun White. White, um altamente comercializável e virtuoso snowboarder de Carlsbad, na Califórnia, catapultou o esporte a um patamar bastante semelhante ao que encontramos o surf hoje em dia. A comunidade do snowboard que, como a comunidade do surf, é inerentemente protecionista e zelosa contra participantes insinceros, inicialmente expressou ceticismo. Nove anos mais tarde, os endossos de White com a Red Bull e a Target podem ter elevado uns poucos metros as linhas dos teleféricos, mas eles devem ser creditados por progredir o snowboard a níveis inimagináveis.

“Eu me arriscaria a dizer que o snowboard não teria chegado ao nível que tem hoje se não fosse pelas Olimpíadas”, diz Zach Boon, gerente global de Marca da Nike 6.0. “As medalhas de ouro e as capas de Rolling Stone eram algo tão inimaginável para os snowboarders quanto double corks e locais de treinamento secretos. A indústria do surf só tem a ganhar com a diversidade de ideias e práticas”.

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Shaun White com a medalha de ouro das Olimpíadas de Inverno de Turim, março de 2006. Foto: Platon

A evolução de White com a Target, de acordo com Michels, foi largamente autônoma. As diretrizes não vieram de cima, mas de dentro. “O que nós fizemos com Shaun tem sido ideia dele”, diz Michels. “Tem sido o que Shaun quer fazer. Não estamos chegando em Carissa e Kolohe e dizendo: ‘Ei, em alguns anos nós queremos fazer linhas de roupas com vocês’. Isso não é coisa nossa. Era ideia de Shaun fazer uma linha de roupas. Ele queria. Como podemos dizer não quando alguém é apaixonado por sua experiência de crescer com uma marca e isso tem feito sua vida melhor?”.

A resposta emerge retoricamente. A progressão de White com o snowboard reflete a integração da Nike junto à cultura do skate – possivelmente o único grupo historicamente mais avesso a influência corporativa do que os surfistas.

“A inserção de uma marca como a Nike atuando especificamente na indústria do surf, é realmente algo que o pessoal da Nike SB ajudou a desenvolver”, diz Boon. “A sua dedicação para fazer o que é certo para o skate tem sido amplamente aceito e apreciado. Esse sentimento, tanto interna como externamente, abriu a porta para a Nike em mais esportes de ação”.

Propagandas à parte, depois de montar uma incomparável equipe de jovens talentos e apoiar eventos de alto nível, como o Lowers Pro e o U.S. Open of Surfing, as ações da Nike certamente parecem se alinhar com suas intenções. Mesmo McKnight, que é rápido em criticar os recém chegados desinteressados em investir na cultura do surf, aplaude os esforços da Nike 6.0 e outros como ela que demonstraram um compromisso com o estilo de vida.

“Eles estão patrocinando atletas, eventos, têm centros de formação e são empresas de esportes que agora decidiram apoiar o surf e o skate, por isso admiro muito eles”, diz McKnight, cuja empresa [Quiksilver] faturou 1,98 bilhões de dólares em 2009 e, de acordo com a Forbes.com, lhe rendeu 1,8 milhões no mesmo ano. “Eu acho que eles estão fazendo isso da maneira certa. Eles estão assinando cheques grandes, e eu acho que isso assusta muitos de nós, mas… nós desafiamos as não endêmicas, que se eles vão vir, pelo menos façam isso corretamente. E eles estão”.

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Carissa Moore mostrando seu portfólio. Foto: Divulgação Nike 6.0

McKnight conta que nunca achou que chegaria no patamar atual. “Meus objetivos iniciais para a Quiksilver eram apenas fazer bermudas, ir à praia, continuar surfando, me divertir e, com sorte, fazer disso uma carreira – talvez, mas eu tinha todo um plano B. Nunca, jamais, mesmo em meus sonhos mais malucos eu pensei que isso se tornaria o que se tornou. Em alguns aspectos ainda nos vemos desse modo, ainda que tenhamos atingimos [quase] dois bilhões em vendas, abrimos o capital, operamos em 90 países, temos escritórios em todo o mundo e 800 lojas de varejo e toda essa porcaria… nós ainda nos orgulhamos de ser como uma pequena e ágil empresa de bermudas, e é por isso que nós colocamos cada partícula de energia em nossa bermudas. Toda boa empresa tem algo é o seu carro chefe. Para nós, são as bermudas”.

Essas meras peças de roupas com uma montanha e uma onda – de algodão polietileno, com fecho de velcro, que paravam a uns poucos centímetros das coxas e que foram projetados para resistir a um forte caldo em Sunset Beach – catalisou o nascimento de algo maior do que qualquer um poderia ter antecipado: uma indústria que fatura em torno de 7,2 bilhões de dólares [nos EUA] por ano. Assim como os que a constituem, a indústria vê a passagem do tempo sem parar de crescer. Cinquenta anos mais tarde, estamos apenas começando a entender as consequências dessa metamorfose. Assim, tentamos enxergar as peças dessa paisagem ramificada. Em localidades remotas, além do alcance da indústria, a cultura do surf se dissemina de forma semelhante ao início. Apenas surfistas. Apenas ondas. Em contraposição, em epicentros industrializados, a cultura do surf evoluiu/regrediu (N.T.: O autor usa o termo (d)evolved, sem aplicação para o português) para algo quase irreconhecível. As empresas que, simultaneamente, progrediram e lucraram com o esporte/estilo de vida também o transformaram em uma espécie de microeconomia. E, até certo ponto, tudo bem. As coisas devem evoluir. Sem isso, uma grandeza da magnitude de Kelly Slater pode não existir, e certamente não atrairia o amplo respeito e reconhecimento do mundo em geral. Mas economias, como os orçamentos, trabalhadores e atletas que elas sustentam, desejam o crescimento. Dores de crescimento são resultantes.

Então, quando eu pergunto a Carissa Moore, indiscutivelmente a melhor jovem surfista do mundo, que conselho ela poderia dar às maiores marcas de surf para manter seus atletas, sabendo que grandes empresas estão se aproximando da cultura do surf com olhos arregalados, bolsos profundos e, aparentemente, boas intenções; ela, educadamente como sempre, começa uma frase. Para. Inicia outra frase. Para novamente. Então começa uma última frase, tentando sinceramente responder a pergunta antes de rir e, educadamente, adiar a resposta: “Eu acho que preciso de um tempinho para pensar nessa”.

Eu entendo perfeitamente.

Texto originalmente escrito e postado por Zach Weisberg, em 25 de novembro de 2010, no portal The Inertia. Acesse o artigo aqui.

Tradução: Lucas Zuch

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