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A indústria do surf está crescendo – Pt. 1

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Há dois anos atrás iniciava meu trabalho de conclusão de curso, que tinha como tema o estilo de vida e comportamento dos surfistas da cidade onde moro, Porto Alegre (RS). Enquanto vasculhava o que havia de literatura e garimpava a internet à procura de dados sobre o surf, os surfistas e a indústria desenvolvida ao redor deste esporte, em certa ocasião me deparei com esse artigo que vocês estão prestes a ler. “The Surf Biz is Growing Up”, escrito por Zach Weisberg, foi o primeiro de muitos textos enriquecedores que tive a sorte de encontrar no portal The Inertia. Zach é escritor, ex-editor da revista americana Surfer e fundador do The Inertia, que é uma plataforma para surfistas do mundo todo escreverem sobre os tópicos mais diversos, de política a design de pranchas, de tubos e rasgadas a desenvolvimento sustentável.

Após eu mesmo ter me tornado um colaborador – “A Chilean Journey”  – entrei em contato com Zach para ver uma forma de colaboração entre um cérebro instigado e uma nova plataforma, desta vez para o público de língua portuguesa, que seria o Surfari. Zach, que terá seu perfil-entrevista atualizado em breve, concordou de bom grado. Para início dessa conversa, que esperamos ser proveitosa e duradoura, fica um dos sagazes artigos escritos por Weisberg. A indústria do surf está crescendo…

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Apesar das dúvidas da cultura do surf sobre uma incômoda (e talvez indesejada) transição, o crescimento pode não ser uma coisa tão ruim assim. Basta perguntar a Carissa Moore. Foto: Jason Kenworthy

Em 23 de julho de 2009, uma enxurrada de comunicados de imprensa invadiram as caixas de entrada da indústria do surf. O anúncio dizia que Carissa Moore, fenômeno havaiano, então com 16 anos, tinha oficialmente unido forças com a Target, uma empresa que atingiu U$ 65,4 bilhões em receitas em 2009 (isso corresponde a quase dez vezes o faturamento das indústrias de surf e skate, juntas) e é ranqueada entre os dez maiores varejistas dos Estados Unidos. Era apenas uma assinatura. Uma pessoa. Um contrato. Mas uma pausa nervosa e as potenciais ramificações daquela assinatura atravessaram com um baque as portas da Quiksilver, Billabong e outros gigantes da indústria. A história fez seu caminho até mesmo à areia e para alguns lineups – ao menos no sul da Califórnia. Pode-se descrever os surfistas como um bando de protecionistas, de modo que a perspectiva de perder uma das mais jovens estrelas do esporte para o fornecedor favorito dos EUA em amaciante de roupa e decoração de dormitórios não caiu bem.

Seis meses mais tarde, em 20 de janeiro de 2010, a história pareceu se repetir quando, então com 15 anos, Kolohe Andino se tornou o primeiro surfista masculino a juntar forças com a Target. Subitamente, a Target lançou um crescente império oceânico ao se alinhar com os dois melhores jovens surfistas do mundo. Agora, a prancha de Andino, que foi por um longo tempo objeto de discussão desde que ele ganhara seu primeiro título da National Scholastic Surfing Association (NSSA) com dez anos de idade, se tornou importante por razões diferentes. As pessoas estavam acostumadas a discutir suas características relacionadas ao desempenho na água: um pouco mais curta, mais gorda, um pequeno tweak para o rocker. Estas eram variações sutis que fizeram um grande impacto na carreira de Kolohe como surfista, mas agora sua prancha não ostentava mais um collage de logotipos familiares que construíram a indústria do surf desde o início. Parecia alienígena. A prancha de Andino, seu veículo no oceano e na vida, lançou um novo conjunto de iconografia. E o alvo da Target na borda, como um gesto figurativo, não poderia ter sido mais apropriado.

Andino e Moore acumulam, juntos, algo como vinte títulos NSSA, uma vaga no World Tour (N.T.: em 2012 ambos fazem parte do WT), múltiplas vitórias em WQS e hype suficiente para abastecer um Tesla por um ano. Então, como e por que os dois maiores nomes do surf juvenil abandonaram a ciranda da indústria do surf?

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Kolohe Andino comemorando a vitória na categoria principal da NSSA, 2009. Foto: Jack English

“Eu só queria alguma coisa diferente, eu acho”, disse Kolohe Andino pelo telefone durante uma viagem pela Indonésia. “[A Target] não tem tantos atletas, e isso lhes dá mais margem para fazer coisas diferentes, como me mandar para as ondas onde eu preciso mais experiência e coisas assim, sabe? Não são coisas extravagantes, mas são realmente grandes em termos de ajudar a desenvolver o meu surf e a minha competitividade no surf; também, me enviar para Teahupoo e ter uma casa no Hawaii… coisas assim”.

Enquanto a lógica de Kolohe soa pouco convincente (empresas de surf excursionam o mundo várias vezes a cada ano com seus atletas principais e dão casa e comida na temporada havaiana há décadas), Andino sugeriu uma ambição maior: uma que as empresas com bolsos mais profundos e recursos mais amplos podem ser mais qualificadas para realizar.

“O surf é um esporte extraordinário” disse Andino. “Eu acho que deveria ser provido para todos no mundo. Eu acho que se as marcas não endêmicas podem espalhar isso para a maior parte do mundo, talvez mais pessoas irão entrar na água e, então, um dia o surf pode estar nas Olimpíadas, quem sabe?”.

Glorioso (ou desagradável, dependendo da sua vantagem) como esse futuro possa parecer, o conhecimento de Andino sobre questões globais ressoa com a família Moore, que desbravou uma fronteira não só para jovens surfistas, mas, especialmente para surfistas mulheres.

“A indústria foi composta de homens por gerações”, diz o pai de Carissa, Chis Moore. “Os caras dão as cartas e as garotas são, basicamente, um distante número dois no modo como as coisas funcionam no mundo do surf, por isso havia uma frustração da nossa parte”.

“Por sete anos foi tudo muito bom com a Roxy” contou Chris Moore. “Muito bom mesmo. Você não vai ouvir reclamações de mim ou da Carissa, mas, ainda assim, a coisa estava uns passos atrás. As não endêmicas pareciam ter uma melhor compreensão sobre umas questões de igualdade”.

A Nike 6.0, uma divisão de esportes radicais da Nike (separada da Hurley, outra marca pertencente ao grupo Nike), deu passos importantes dentro da comunidade do surf equipando uma impressionante lista de jovens talentos como Dusty Payne, Kai Barger, Coco Ho, Nat Young, Lakey Peterson e Michel Bourez (N.T.: entre outros, os brasileiros Alejo Muniz, Filipe Toledo e Pedro Scooby, também reforçam o plantel da marca). Além disso, a marca preparou o lançamento de um filme de surf estrelando apenas mulheres (algo que a Roxy também tentou em 2006, com Shimmer). Vendo que a Red Bull, outro entrante investindo pesados em seus talentos, impulsionou Maya Gabeira para o zênite do surf feminino em ondas grandes, começa a se entender o caso de Moore.

“Eu acho, honestamente… foi só uma oportunidade que visualizamos”, Carissa Moore me disse pelo telefone. “[As não endêmicas] pareciam poder me dar uma estrutura de apoio muito grande para o futuro”.

O CEO da Quiksilver, Bob McKnight, um dos únicos executivos da indústria que concordou em comentar, compreensivelmente, discorda.

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Bob McKnight e Kelly Slater na comemoração do 10? título mundial de Slater. Foto: Ben Marcus

“Eu não acho que uma Target ou uma semelhante [empresa não endêmica] pode apoiar estes atletas como nós podemos”, disse McKnight, que co-fundou a Quiksilver em 1976. “Nós, eu digo, Quiksilver, Billabong, Hurley, Volcom, O’Neill, porque tem muito mais coisas do que apenas dar um cheque a eles. Você tem que apoiá-los entre seus altos e baixos na carreira, nas questões de saúde e lesões. Você tem que apoiar eles quando chegam no Japão, na Austrália, na Indonésia ou na França, se eles estão doentes, se acaba o dinheiro, se perdem a bagagem, não conseguem uma passagem para o próximo destino ou perdem o passaporte. Nós temos escritórios em todos esses lugares e pessoas que podem apoiá-los “.

Mas, ironicamente, a estrutura de apoio citada por McKnight acabou se tornando um dos fatores mais influentes em direcionar a família Moore para o outro lado.

“Para a Carissa pular das endêmicas para as não endêmicas, não foi uma questão financeira”, disse Chris Moore. “Claro, o dinheiro é bom, mas parece que as marcas endêmicas ou deixam seus managers muito sobrecarregados ou eles não tem algumas habilidades necessárias para lidar com uma equipe grande… parece haver um pouco de frustração, ao menos senti isso no lado paternal. O que vimos com a Nike, a Red Bull e a Target é que os atletas de ponta vem recebendo um serviço muito melhor. Se a Carissa precisar de alguma coisa ou tem uma dúvida, a porção de tempo entre a questão e a resolução tem uma diminuição significativa”.

Os termos de compensação dos atletas permanecem confidenciais. “As pessoas extrapolam demais [os números] e fazem acusações e suposições que são muito distantes da realidade”, diz o ex-surfista profissional e pai de Kolohe, Dino Andino. “Estou muito feliz com a forma que o Kolohe tem sido assistido, mas nem tudo se trata de dinheiro. É, também, sobre os programas que estão desenvolvendo e a abordagem diferenciada”.

Dino Andino e Bob McKnight reconhecem que um plantel de 70 atletas fragilizam os recursos de uma companhia, o que reafirma o apelo de uma marca como a Target, que se ofereceu para enviar Kolohe e seus amigos (não colegas de time ou outros profissionais) em surftrips com nenhuma outra finalidade a não ser a diversão. “É simplesmente sobre ele se divertir com os seus amigos”, diz Dino. “Eles não precisam de nada em troca, eles só querem apoiá-lo em seu desenvolvimento, e acho que eles [Target] percebem que estar se divertindo é uma parte importante disso”.

Troy Michels, líder de equipe da divisão de Marketing e Estilo de Vida da Target concorda. “Não há nenhuma agenda secreta”, diz Michels, “se trata de diferenciação para nós e é uma maneira única de estender nossa marca e crescer com os parceiros certos. Realmente, estamos aqui apenas para ouvi-los. É algo do tipo: ‘Então, como podemos ajudá-los a progredir?’ Somos todo ouvidos. Eles ditam como fazemos as coisas. Nós não estamos dizendo a eles o que fazer. Estamos ouvindo”.

Continua…

Introdução e tradução por Lucas Zuch.

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