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“A gente não precisa de ídolo estrangeiro”

Enfrento certa dificuldade na hora de filtrar as informações que recebo pela internet. Timelines do Facebook, Twitter, Instagram, blogs, sites. Uma infinidade de fontes que todos os dias inundam meu disco rígido com textos, fotos e vídeos. Por mais que eu tente  evitar, certas coisas acabam passando por alguns filtros que eu criei e vez ou outra,  me  encontro fadado a engolir uma quantidade de lixo considerável. Um auto-retrato narcisista aqui, um merchandising corporativo alí e assim a paciência vai indo embora. De quem é a culpa? Porque tanta informação irrelevante? Porque tanta urgência?

Claro que estou falando, principalmente, de publicações relacionadas ao surfe. A maior parte do conteúdo que absorvo durante um dia inteiro através de um smartphone e meu computador, tem água salgada em algum ponto da conversa.

O que antes ficava a cargo das revista especializadas hoje é terreno aberto. Praticamente qualquer um com uma câmera e boas oportunidades pode ser chamado de imprensa por leitores mais preguiçosos. Existe uma infinidade de sítios virtuais falando sobre os mais variados nichos de interesse. Mas seja lá qual for o cunho editorial da publicação surfística, não costuma ser fácil encontrar informações relevantes.

E quando direcionamos nossa busca para publicações em português, a relação entre qualidade e quantidade parece pesar ainda mais para o lado negativo, infelizmente.

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Culturalmente falando, o surfe está em pleno desenvolvimento no Brasil. Para os mais otimistas, este movimento tem um lado positivo maior do que negativo. Mas o fato é que em geral, não damos mesmo muita bola pra “bobagens teóricas” ou “histórias das antigas”. Para a grande maioria dos surfistas brasileiros, o negócio é saber quem ganhou  a última etapa do circuito mundial, checar uma câmera apontada para o mar e navegar entre uma infinidade de anúncios que tentam vender produtos quase idênticos.

Mas certas coisas parecem estar mudando. E apesar da péssima fase que atravessamos no mercado, essa mudança pode melhorar a situação. Sim, melhorar eu disse. Talvez não melhore as cifras no extrato bancário de certos “figurões”, mas uma para quem pega onda de verdade. Quem realmente importa, afinal.

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A geração que começou essa papagaiada toda que chamamos de surfe profissional brasileiro envelheceu, seus filhos hoje tem opiniões próprias, vontades e referências que seus pais não tinham. Bom ou ruim, é o que é. Hoje é possível identificar duas gerações de surfistas dividindo os lineups do nosso país.

Mas ainda ouvimos, lemos, assistimos e nos alimentamos culturalmente de forma infantil e ignorante. Sem crítica, sem opinião. Se não está bom, tudo bem! É só alterar minha busca de “.com.br” pra “.com”. Os gringos sempre fazem melhor, não é assim que estamos acostumados a pensar?

Mas por causa de linhas de pensamento preguiçosas como essa, infelizmente muitos surfistas tupiniquins conhecem mais sobre a cultura californiana, por exemplo, do que da praia em que aprendeu a surfar. Consegue ditar inúmeros nomes de surfistas internacionais e seus respectivos homebreaks, mas não é capaz de identificar ícones da história do surfe nacional. Mesmo quando se encontram dentro d’água.

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O momento é de criação, de contar histórias, de instigar a construção da base cultural que tanto faz falta no Brasil. Hora de valorizar o que é nosso, sem ufanismo, e esquecer um pouco da grama do vizinho. Ainda que ela seja realmente mais verde.

Se lembra daquela frase genial, grito de guerra do “Lombrô 3”, um dos melhores filmes de surfe nacionais da década passada?

“A gente não precisa de ídolo estrangeiro”

Pois é.

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